< Crónicas de Sampa: julho 2005

quinta-feira, julho 28, 2005

Por vezes - as autoridades inventam proibições sem que se entenda muito bem a razão da sua existência.

terça-feira, julho 26, 2005

Sinalização adequada - ao local e ao momento. Não pude deixar de esboçar um largo sorriso ao ver este sinal.

Paraty

Após quatro meses, finalmente cumpriu-se a visita a um destino obrigatório na região do sudeste brasileiro: Paraty. Cidade histórica de grande importância económica no século XVIII (era através deste local que saía todo o ouro do Brasil em direcção a Portugal), preserva ainda o seu centro histórico com sinais evidentes da colonização portuguesa. Calçada pé-de-moleque, edifícios antigos e maioritariamente brancos, a fazer lembrar o Alentejo. No entanto, esperava ver construções em melhor estado de conservação.



A grande virtude deste lugar é a sua localização, entre a serra e o Oceano Atlântico. De um lado a densidade da mata atlântica, e do outro o azul da baía, o ouro das praias mais inacessíveis. E é esta combinação de factores que torna a cidade atraente. Há possibilidade de fazer praia, mergulho, caminhadas ao longo de todo o ano. Contrariamente a São Paulo nesta época de ano, Paraty presenteou-nos com um sol e temperatura bem agradáveis, a fazer esquecer que estamos no Inverno.

Quando o passeio é muito agradável, pouco se pensa nas 5 horas de caminho que foram necessárias para chegar ao estado do Rio de Janeiro. Nem sequer os 8 quilómetros de descida da serra até Ubatuba, que podem competir em pé de igualdade com qualquer estrada alpina. No entanto é inevitável o aparecimento do cansaço. No primeiro dia, visita à cidade e cachoeira. No entanto, o melhor estava reservado para domingo, onde o atraso da comitiva C8 para apanhar uma espécie de cruzeiro na baía de Paraty acabou por ser uma boa coisa. Alugamos um barco só para nós durante cinco horas, e foi passear ao sabor dos nossos desejos. Uma primeira paragem na Praia Vermelha e outra para almoçar na ilha de Cambotiú. Trata-se de uma ilha-restaurante ou um restaurante-ilha, em que o cartão de visita do estabelecimento não incluía morada, mas sim as coordenadas da ilha! Obrigatório um almoço nesse local para quem vai a Paraty. O marisco pode não ser tão bom como é em Portugal, mas acreditem que quem lá vai consegue esquecer este pormenorzinho.

No regresso a São Paulo e a mais uma semana de trabalho, fica uma certeza: não posso deixar de aproveitar estes destinos, mesmo que o ideal seja sempre um prazo superior a um fim-de-semana. O meu estágio não prevê férias pelo que há que aproveitar ao máximo. Venham as próximas aventuras, avizinha-se um passeio até às cidades históricas de Minas Gerais em breve.

quinta-feira, julho 21, 2005

Preconceitos com os portugueses - São Paulo, como todos sabem, é uma cidade enorme. Com 20 milhões de pessoas à volta, torna-se difícil encontrar portugueses, até porque eles conseguem integrar-se bem na sociedade brasileira. No entanto, há um lugar onde é fácil encontrar alguém da pátria de Camões: as padarias.

Eu sei que é difícil acreditar nisto, mas não há nada como entrar, procurar o dono e perguntar. Se não se quiser perguntar, exagera-se um pouco o sotaque lusitano para se fazer notar. Do outro lado do balcão ou caixa surge a inevitável pergunta: você é português? Sim senhor. O patrão pode até nem ser português, mas a probabilidade do seu antecessor ter sido patrício é muito elevada. Geralmente estas pessoas são originárias ou de Trás-os-Montes ou da Madeira, e já residem no Brasil há mais de 50 anos. Deixaram um Portugal que hoje já não existe, fugiram da miséria das aldeias do interior em busca do sonho de uma vida melhor. A maioria foi bem sucedida, conseguiram atingir um nível de vida praticamente impossível para eles em Portugal e conseguiram oferecer educação aos filhos, que mesmo sendo completamente brasileiros ainda assim mantêm alguma contacto com as suas raízes.

E é esta realidade que dá origem à imagem que os brasileiros têm, em regra geral, sobre o português. Veio da terrinha há meio século atrás, sem nada no bolso, chama-se Manuel ou Joaquim, abriu uma padaria, usa lápis atrás da orelha e a mulher tem bigode. É óbvio que há muitas e honrosas excepções a este tratamento, o que não vai impedir que este preconceito perdure no tempo. Aliás, é esse mesmo preconceito que origina imensas piadas sobre os portugueses, assim como em Portugal há sobre os alentejanos ou em França sobre os belgas.

E se ainda não ficaram convencidos, eis a prova, uma música já velhinha dos Mamonas Assassinas, "Roda roda vira", que muitos ainda se devem recordar:

"...Manuel tu na cabeça tem titica larga de p*taria e vai cuidar da padaria".

domingo, julho 17, 2005

Weekend chato - devido ao trabalho temático do ICEP. Tem de se ficar em São Paulo, a (tentar) trabalhar durante o dia e a tarde, e beber cervejas à noite.

O maior problema é mesmo ter perdido mais um fim-de-semana para viajar. É que o estágio já está quase a metade, e ainda falta muito para ver.

sexta-feira, julho 15, 2005

Parabéns - ao São Paulo, pela terceira conquista da Copa Libertadores, máximo troféu da América Latina. Agora o nome do estádio vai mudar: de Morumbi para Morumtri.

A festa segue dentro de momentos, por toda a cidade.

quinta-feira, julho 14, 2005

Notícias de Portugal - A Internet de banda larga é uma ferramenta espectacular, capaz de proporcionar o que quer que seja. Uma das últimas descobertas foi o Telejornal on-line. É uma óptima companhia enquanto se prepara o jantar, e como a sua duração continua a ser em média superior a uma hora, até dá para chegar à sobremesa.

Quanto ao conteúdo em si, revela um país igual a si próprio em que nada mudou desde que fui embora, já lá vão quatro meses. Greves de professores e polícias, seca extrema em todo o território, projectos estapafúrdios para impulsionar a economia e um parolo que não quer chineses nem indianos na ilha dele. Como é óbvio, também não faltam as notícias relacionadas com o acompanhamento da pré-época dos 3 grandes.

O mais preocupante: a escandalosa situação orçamental do país. Os impostos aumentam e não vão descer ao longo desta legislatura. O IVA estava a 17% em 2002 e a actual alíquota estrangula a economia. Os contribuintes (os que contribuem) pagam agora a factura de uma política orçamental desastrosa.

O país já não está de tanga, está é de fio dental.

terça-feira, julho 12, 2005

Fim-de-semana na fazenda

Definitivamente, o interior é que está a dar.

Outra viagem de carro, desta vez em direcção a norte. O destino era uma fazenda e a companhia os amigos Erasmus de Copenhaga que estão a viver em São Paulo, Carlos e Carolina, de quem partiu o convite. Tinha muito para ser um fim-de-semana parecido com o anterior, mas com uma grande diferença: nada de baladas nem cerveja. Não deixou de ser muito bom por causa disso.

Saída de São Paulo, sábado de manhã. Já se torna um mau hábito ver as favelas a passar e olhá-las com certa indiferença, como se tratasse de uma coisa já muito natural. Dois factos marcaram a diferença em relação a outras rodovias que saem da capital: o péssimo estado da via, cheia de buracos, com imensas curvas perigosas e sinalização inexistente, e a desflorestação maciça. Este último fenómeno deve-se sobretudo à criação de gado, que leva à substituição de árvores por pastagens. É pena, não basta a floresta amazónica, também a mata atlântica vai sendo destruída aos poucos. No entanto, há medida que a cidade fica mais longe e o ar mais puro, tudo se torna mais agradável, até a própria estrada. O caminho era longo, e a partir do momento em que se entrou na estrada de terra passou-se para um planeta diferente, isolado, onde não há acesso a redes de telemóveis, o serviço de telefonia fixa costuma estar indisponível devido a quedas de árvores e o carro mais visto é o carocha. A primeira paragem foi para apreciar uma cachoeira (cascata) e ouvir o agradável som de uma corrente de água a deslizar sobre pedras. Depois, mais meia hora de caminho e chegada à fazenda.

A maior aventura prometida era um passeio a cavalo. Confesso que para estreante não me saí mal, no entanto as costas queixaram-se um pouco. Metade da cavalgada foi feita já no escuro, a atravessar montes, riachos e encostas abruptas. Ainda bem que estava escuro, pois ter-me-ia assustado caso soubesse por onde andava! Para a história fica uma vista maravilhosa da serra e da floresta, com a última claridade do dia; o céu estrelado, como nunca vi na minha vida, sem qualquer claridade a poluir a visão. Só mais uma coisa: muito frio! De noite, sem qualquer efeito de estufa, o termómetro chegou aos 2 graus…quem disse que o Brasil não é frio? Pois, e esta parte do interior do Estado de São Paulo, extremamente montanhosa, tem que se lhe diga. Ou seja, uma lareira nestas circunstâncias sabe sempre bem, mas é estranho pensar nisso num mês como Julho!

O resto do fim-de-semana ainda incluiu um passeio de barco num lago e um agradável convívio com a família da Carol. Também um contacto com um sotaque do interior de São Paulo, que eu não consegui entender nada. Agora a conclusão: para cerca de 24 horas passadas na fazenda, percorreram-se 200 quilómetros em cada sentido, para cerca de três horas de viagem. No Brasil, uma distância destas é muito curta, e vale bem a pena o percurso mesmo para aproveitar apenas um dia.


A fazenda Posted by Picasa


A estreia de cavalo Posted by Picasa


Pessoal de Copenhagen na cachoeira Posted by Picasa

sexta-feira, julho 08, 2005

O mundo - teme a Índia pelos seus serviços, a China pela sua indústria e o Brasil pela sua agricultura.

quinta-feira, julho 07, 2005

Afinal - também faz frio em São Paulo. Hoje de manhã o céu paulistano reservou uma pequena surpresa para os seus habitantes. Chuva, e 10 graus de temperatura.

Finalmente o casaco vai ter alguma utilidade.

quarta-feira, julho 06, 2005

Vender gato por lebre (versão brasileira) - é vender fiambre e afirmar que se trata de presunto.

terça-feira, julho 05, 2005

Não há nada pior - do que pedir uma caipirinha de morango e ser brindado com um milk shake de morango com vodka.

segunda-feira, julho 04, 2005

Itu

Finalmente, o regresso às viagens.

Junho foi completamente atípico se atender ao que se passou durante os dois primeiros meses do estágio. Em vez de passeios constantes a cada fim-de-semana passei por uma fase em que fiquei em São Paulo muito tempo seguido. Confesso que este imobilismo me estava a deixar nervoso, e a pensar se estaria ou não a aproveitar bem o tempo. É que não é preciso percorrer grandes distâncias ou ir de avião para fazer grandes viagens: o interior de São Paulo tem muito para ver.

O interior costuma ser um destino de eleição nos meses mais frios do ano, quando os paulistas acham que não está calor suficiente para descer a serra do mar e gozar um fim-de-semana de praia. Nesta linha de raciocínio optamos por visitar Itu, cidade que dista 100 km de São Paulo e onde se encontram a trabalhar mais 2 estagiários do C8 e outro C6. A romaria começou relativamente tarde, sábado à luz dos últimos raios de sol. Algum trânsito, para não variar, e muita favela. São uns 15 km em que a miséria se espalha à volta da rodovia Castello Branco. E numa área de serviço com restaurante português encontramos placas a indicar a distância que nos separava de várias cidades lusitanas. Nada como ficar a saber a real distância entre Lisboa e São Paulo: cerca de 8000 km.

Itu é uma cidade pacata, com cerca de 60 mil habitantes. Não fosse a presença de outros estagiários e dificilmente seria motivo de visita. Primeira conclusão assustadora: falta de oferta. Poucos botecos, poucos restaurantes. São Paulo habituou-me a uma diversidade de escolha que me deixa perdido quando encontro apenas meia dúzia de estabelecimentos disponíveis para o propósito desejado. Tenho a certeza que quando regressar a Lisboa vou sentir muito a falta desta comodidade.

Do outro lado da balança, a ausência de poluição do ar, sonora, visual, só mesmo o Rio Tietê consegue estar pior do que em São Paulo (também é natural que assim seja, pois Itu fica a montante da capital paulista). A falta de confusão e barulho até estranha. Favelas não existem, e não se nota uma discrepância tão grande no que concerne a distribuição do rendimento. A conduzir é que eles são todos iguais

Mais: Itu é famosa no Estado por ser uma cidade em que tudo é grande. O mito nasce a partir de uma personagem interpretada por um actor da Globo originário da cidade e que dizia “em Itu tudo é grande…”. Para homenagear esta personagem, Itu tem dois monumentos: um orelhão gigante e um semáforo gigante. É absurdo mas a cidade vende esta imagem e associada a ela uma série de objectos banalíssimos em tamanho grandeque servem de souvenir. Exemplos: notas de banco, baralhos de cartas, lápis, preservativos, réguas, etc.

A noite foi animada. O destino foi uma discoteca in de Indaiatuba, uma cidade vizinha. O grande problema das baladas no Brasil é o (des)controlo de entradas: não se consegue estar lá dentro. Muitas pessoas acabam por desistir saindo, o que torna a discoteca mais agradável (no entanto isto só acontece por volta das 4h30 da manhã. Outro grande problema: o tempo necessário para pagar à saída. Pode demorar cerca de meia hora. Somando todo este tempo e ainda uma ida à padaria para recuperar energias a noite terminou já o sol ditava as leis: 8h30.

Depois, pouco mais a ver. Dormir, almoçar, beber café e regressar a São Paulo. Aí, nada a fazer: 20 km de paragens na rodovia Castello Branco. E para acabar bem a semana nada como encher a geladeira de casa que estava num estado miserável.

E a sensação de ir descansar com a consciência de ter aproveitado bem o fim-de-semana (ou pelo menos mais do que nos anteriores).


Favelas, a mis�ria Posted by Picasa


Lisboa est� longe... Posted by Picasa


Depois de acordar... Posted by Picasa


O orelh�o gigante Posted by Picasa


O telefone gigante Posted by Picasa

sábado, julho 02, 2005

Uma pequena nota - para as melhorias introduzidas no site. Que já deveriam ter sido feitas há muito tempo, mas só hoje se concretizaram. Adição de novos links, nomeadamente da comunidade C8 espalhada mundo fora.

sexta-feira, julho 01, 2005

Jóquei Clube - Domingo à tarde, dia de Inverno, já não é tempo de praia, isto apesar da temperatura continuar amena (com a temperatura por volta dos 15 graus casacos, gorros e luvas começam a ser vistos). A alta sociedade paulistana gosta de se reunir em lugares in. Essencialmente para ser-se visto.

Um destes lugares é o Jóquei Clube. Lugar comum de apostas de cavalos, atrai também outro tipo de clientela que não sejam os viciados do jogo. Muita gente bonita, como se diz por aqui. Tudo bem vestido, senhoras com vestidos chiques e chapéus feios.

No entanto, não deixa de ser um lugar agradável nesta cidade. A vista da bancada para o hipódromo prolonga-se para lá do mesmo, atravessa a marginal que ladeia o Rio Pinheiros e só depois é que se avistam os prédios altos, a selva de pedra. Não deixa de ser uma raridade em São Paulo: a densidade de betão é impressionante, é como se não houvesse qualquer buraco para respirar à vontade.

O anoitecer é espectacular: o sol deita-se sobre o hipódromo e as luzes da cidade começam a delinear o sol da noite. Os céus são cruzados a cada cinco minutos por um avião comercial que está prestes a chegar ao aeroporto.

Para perceberem porque é que é agradável um lugar como este, deixo-vos estas duas fotos para tirarem ilações.


J�quei Clube, e em frente o bairro de Itaim Bibi Posted by Picasa


A "selva de pedra" Posted by Picasa